Beijos Verdes
Caio era conhecido na comunidade. Começara a carreira como mula e hoje iniciava a sua coleção de dólares graças ao entorpecimento da classe média carioca. Filho de mãe forte e pai desconhecido, foi rebelde ainda pré-adolescente e deixou levar-se pelas facilidades oferecidas pelos “Caras” do morro, um verdadeiro time de traficantes elevados a categoria de ídolos.
Foi por causa das “verdinhas” que Caio conheceu Verônica. Vica, como era conhecida no asfalto, começara a freqüentar bailes funks aos 15, para desespero de sua loiríssima mãe, moradora da Barra da Tijuca. Léia era uma emergente clássica e dava mais valor aos anéis que aos dedos. Finais de semana foram se passando e o que, a princípio, parecia aventura de patricinha, tinha se tornado algo visceral e muito desejado pela menina. A frequência da balada foi aumentando e Vica se enturmando com os reis do pedaço, com o time da pesada. Tentada pelo luxo e conforto oferecidos, ela foi ficando e tornando o duplex na Maré a sua moradia.
Totonho era o nome do maestro de seus sonhos e seqüestrador de sua juventude. Foi ele quem fez da adolescente uma de suas esposas. Mas Vica não esquecia um certo olhar maroto mirando seu corpo na clássica rebolada até o chão em seu primeiro baile. Como a primeira vez não se esquece, os olhos verde-oxigenados de Caio tiravam-lhe a paz. Ela era sua amante em fantasia. Pensava que um dia ele poderia ser rei como Totonho e lhe proporcionar vida igual.
Ledo engano. Percebendo os suspiros de sua escolhida por outro alguém, Totonho boicotou trabalho a Caio e fez da vida do rapaz um deserto. Vica então prometeu ao seu algoz e salvador de bens, alguns beijos eternos para que o mesmo não lhe acontecesse. E seguiu com Caio em seus mais íntimos sonhos. Neles, ele era todo verde, e dourava.
