Tenho ouvido, com freqüência, entre aqueles de minha geração a máxima: “minha memória anda péssima”. Compartilho deste sintoma geracional e me pergunto quais seriam as razões para tal fenômeno. Aos 20, 30 já deveríamos ter tal preocupação, ou melhor, este fato concreto assombrando nossa idéia?
Álcool, drogas e rock n`roll? Sem desmerecimento algum à combinação, mas se o trio fosse tão poderoso, teríamos perdido muito das boas histórias que nos foram contadas por nossos antecessores. Freud, a partir de seus estudos com mulheres histéricas, descobre: a amnésia pode operar como defesa. Tentando passar do peculiar ao coletivo, será que nos defendemos de algum inimigo comum?
Ah, o capitalismo, o consumismo e o individualismo… sempre eles! Outro trio “parada dura”. Tentando escapar do chavão, mas sem querer tirar a vilania desta tríade de ismos, acho mais adequado mencionar uma contemporaneidade que nós mesmos construímos. Queremos tudo, achamos poder tudo e aí mesmo perdemos muito. Nesta busca frenética pelo máximo de tudo e qualquer coisa (e rápido!), acabamos nos esquecendo dos detalhes, da construção. Quando nos damos conta, um momento, um ano ou uma relação já se foram e “nóis” aqui, quase sem lembranças, sem brilho. Enquanto vivíamos algo, estávamos preocupados com o dia seguinte, o gozo próximo e… puf…passou! Quando assim, o que se registra da experiência? Não, não é só culpa das gorduras trans!
“O ano voou!”. Realmente precisamos rever nossa relação com esse tempo de asas. Puro escape. Mas estamos querendo fugir de quê? Talvez a convivência com o espelho que nos mostra pessoas mal-acabadas,contraditórias, incertas, com celulites e imperfeições não esteja sendo das mais pacíficas… E parecemos travar essa guerra contra o tempo. E ele, que tem juízo e saúde, bota as pernocas para correr, vaza. Aproveitaremos todos os momentos, não envelheceremos, não ficaremos tristes (ou seremos bipolares de carteirinha!), não perderemos uma festa, pois o mundo está lá se divertindo… pobre tempo… Briguemos sim, mas para saber aproveitá-lo a nosso favor, com todas as suas marcas (para o bem ou para o mal).
É tempo de parar um pouco. Ou esse “tempo que voa” e a “memória que anda” podem mesmo deixar o posto de aliados. E haja “palavras cruzadas” (já aderi) ou “Ginkgco Biloba” para nos remediar… Menos paliativos, mais reflexão! Precisamos de ações-fruto disso e não automatismos frente às exigências de nossos fluidos e impalpáveis ideais modernos. Paremos para pensar antes da próxima “twittada”!