Fogo de palha

•Novembro 24, 2009 • Deixe um comentário

E sobrou fogo…

Cinzas da invasão do tempo

Implacável senhor de destinos

Leitor de instante

Mestre do desconcertante

E sobrou fogo…

Dias reduzidos à prudência

À trapaça de um sorriso

Esconderijo de tesouro

De valor ambíguo

E sobrou fogo…

Queimou, ardeu

Entre terra, mares e ares

A este elemento

O amor cedeu.

Memória de falta

•Novembro 22, 2009 • Deixe um comentário

Tenho ouvido, com freqüência, entre aqueles de minha geração a máxima: “minha memória anda péssima”. Compartilho deste sintoma geracional e me pergunto quais seriam as razões para tal fenômeno.  Aos 20, 30 já deveríamos ter tal preocupação, ou melhor, este fato concreto assombrando nossa idéia? 

Álcool, drogas e rock n`roll? Sem desmerecimento algum à combinação, mas se o trio fosse tão poderoso, teríamos perdido muito das boas histórias que nos foram contadas por nossos antecessores.  Freud, a partir de seus estudos com mulheres histéricas, descobre: a amnésia pode operar como defesa. Tentando passar do peculiar ao coletivo, será que nos defendemos de algum inimigo comum?

Ah, o capitalismo, o consumismo e o individualismo… sempre eles! Outro trio “parada dura”. Tentando escapar do chavão, mas sem querer tirar a vilania desta tríade de ismos, acho mais adequado mencionar uma contemporaneidade que nós mesmos construímos. Queremos tudo, achamos poder tudo e aí mesmo perdemos muito. Nesta busca frenética pelo máximo de tudo e qualquer coisa (e rápido!), acabamos nos esquecendo dos detalhes, da construção. Quando nos damos conta, um momento, um ano ou uma relação já se foram e “nóis” aqui, quase sem lembranças, sem brilho. Enquanto vivíamos algo, estávamos preocupados com o dia seguinte, o gozo próximo e… puf…passou! Quando assim, o que se registra da experiência?  Não, não é só culpa das gorduras trans!

“O ano voou!”. Realmente precisamos rever nossa relação com esse tempo de asas. Puro escape. Mas estamos querendo fugir de quê? Talvez a convivência com o espelho que nos mostra pessoas mal-acabadas,contraditórias, incertas, com celulites e imperfeições não esteja sendo das mais pacíficas… E parecemos travar essa guerra contra o tempo. E ele, que tem juízo e saúde, bota as pernocas para correr, vaza. Aproveitaremos todos os momentos, não envelheceremos, não ficaremos tristes (ou seremos bipolares de carteirinha!), não perderemos uma festa, pois o mundo está lá se divertindo… pobre tempo… Briguemos sim, mas para saber aproveitá-lo a nosso favor, com todas as suas marcas (para o bem ou para o mal).

É tempo de parar um pouco. Ou esse “tempo que voa” e a “memória que anda” podem mesmo deixar o posto de aliados. E haja “palavras cruzadas” (já aderi) ou “Ginkgco Biloba” para nos remediar… Menos paliativos, mais reflexão!  Precisamos de ações-fruto disso e não automatismos frente às exigências de nossos fluidos e impalpáveis ideais modernos. Paremos para pensar antes da próxima “twittada”!

Corpo demais ou de menos?

•Novembro 18, 2009 • Deixe um comentário

Corpo contorno

Fronteira frágil

Adorno

Do fértil imaginário

Extravasam palavras

Fluidos incontroláveis

Passeiam venosamente

Buscando arte-realizar

Materializar o impossível.

Corpo palavra triste quando “se” acaba uma paixão.

This is it!

•Novembro 2, 2009 • Deixe um comentário

É isso aí: a lição MJ.

Quase em dia de finados e sem pieguice, fui ver ao cinema assistir a uma lição de vida. Ao longo do “musical” (e haja auto-controle para não dançar!), esquece-se que Michael Jackson morreu… Ele está ali e, apesar dos pesares, é vida pura, praticamente um mito encarnado! Talvez porque nunca o tenhamos associado a algo real. Criança da terra do nunca, borboleta de fases e narizes. Ele constrói castelos, chupa pirulitos (ficou horrível esse trocadilho sem intenção… perdão senhor!!) em pleno setting , freqüenta o abismo e abisma platéias, um mundo.

Menino que tanto apanhou e justifica suas ações “for Love”. Isso é vida, contradição, palco da talentosa singularidade tentando reverter um sofrimento. Nossas melodias, maluquices, bizarrices, danças, metamorfoses, desejos (e o recalque dos próprios) estão, guardadas as devidas proporções, personificados em MJ. Um thriller do Man in the mirror. Aos 50, mas com surpreendente corpinho, performance e voz de 20. Mesmo teimando em não crescer, ele já era enorme. Um espetáculo. “Heal the world. Save the music!”.

500 dias com ela (500 days with Summer)

•Novembro 2, 2009 • Deixe um comentário

Comédia romântica da mais alta categoria. Diverte, emociona e faz pensar. Dá corda naquela “pulguinha” nossa que se sacode para compreender o outro e o que causa ou (des)causa as relações de maneira geral. E olha que somos insistentes!

Eis que a paixão platônica passa ao estágio de relação. Descobertas, encantamento, alegrias… desencontro. Estações diferentes? Ou tudo na vida dos amores pode ser explicado pela ausência ou presença do “toque do sino”, do “coração na boca”, frio na barriga, do enrubescimento? Devemos nos contentar com a nossa “felicidade comum” ou aguardar a alfinetada de inesperado que nos traz certezas meteóricas?

Aparentemente, eles eram felizes. “Imagem não é nada. Sede é tudo.” Valho-me da propaganda de outrora para afirmar que Summer tinha sede, num intransitivo de complemento indefinido. “De quê?” cantariam os Titãs. Esta é a grande questão: ela não sabia, nunca sabemos.

É justo vivermos aguardando a aparição solene da certeza? Há relação sem risco? A tentativa por si só é um ato de coragem ou covardia? Enfim, há algo de intrigante neste sentimento a princípio desconhecido que nos guia a fazer apostas lá e não cá. Confiemos em nossos sentidos sem pensar demais! Passemos por dias de inverno tentando encontrar nosso verão. Primavera e outono também podem fazer parte de uma ou diversas histórias… Pula pulguinha!

“Amar sem inquietação é amar sem amor.” (Drummond)

Prosa e poesia

•Outubro 7, 2009 • 1 Comentário

Há dias de prosa, outros de poesia.  Existe o tempo do explícito e das entrelinhas.  Da conversa e do grito.  Da construção e da ebulição.  Do trabalho e da paixão. Como diria o poeta (compositor, cronista, cineasta, enfim “um cara” – e que cara! – das palavras!) Arnaldo Jabor; do amor e do sexo.  Há convívio harmônico possível (ufa!).  Mas em dias, momentos diferentes. Nós somos esta mescla de sensações e emoções por vezes ambíguas e conflitantes sim, por que não?  Essa é a grande graça da nossa história: nosso rolo compressor e, ao mesmo tempo, mola propulsora.

Há dias em que muitos silêncios tornam-se um único berro.  Noites são viradas pensando ser possível explicar palavras.  Às vezes, elas parecem faltar, mas estão lá …mesmo caladas. Mesmo sem entendimento, nos é dada a chance de escolher as que bem entendermos. E seguimos com nossos paradoxos, ao menos prosas de nossa poesia.

Desassossego

•Outubro 3, 2009 • Deixe um comentário

‘Não se pode comer um bolo sem o perder’

Fernando Pessoa

Base da verdade

•Outubro 3, 2009 • Deixe um comentário

Fugaz

Inalcansável

Por mais que se corra atrás

 

Pretensamente sólida

Construída sobre prismas

De jardim florido

Sórdida

 

Pilar de areia

Charrete da sombra

Venda do mais pomposo cavalheiro

Olho do indefinível

Vadia

 

Verdade.

Abraços partidos

•Setembro 28, 2009 • Deixe um comentário

Sensacional. A sensibilidade de Almodovar é realmente desconcertante.  Cada diálogo, cor ou tomada de câmera revela surpresas e desnuda emoções, sempre intensas.  “Abraços partidos” é definitivamente um filme sensorial, fala literalmente de sentidos, sensações, seleções.  O que escolhemos ver? A cegueira nos é imposta ou, por vezes, optamos por ela?

O protagonista, quando de posse de todos os seus sentidos, não enxerga. Partida, quebra: uma luz que se abre em meio à escuridão de uma vida inteira, de um nome que não é e precisa tornar-se outro para realmente sê-lo. Depois do furacão Harry Cane há a bonança, a descoberta. Do sofrimento descobre-se a força, da dor grandes lições.

Mateo é um apaixonado que não vê. Escreve boas histórias, admira belas paisagens, mas não percebe a riqueza de seus detalhes. Esquece-se dos personagens principais e de que pode ser protagonista de seu próprio roteiro. O único retrato que permanece intacto é o que indica esse jogo de figura-fundo, do ver ou não ver, o que destaca também todos os nossos antagonismos – sofridos, porém belos como um refúgio de amantes.

É um filme até difícil de se falar sobre, tamanhas as sutilezas e metáforas presentes em diálogos que misturam suspense, romance, drama e humor. Em meio à essa miscelânea de sensações e da força dos personagens, não posso deixar de mencionar uma frase que me chamou muito a atenção. Algo como “estava tudo tão duro que, para suportar, eu tinha que sofrer mais”. Olha ele aí: o eterno sentimento de culpa que nos embola, enlaça e aprisiona. Foi uma das melhores descrições que já ouvi sobre o tema. De uma simplicidade e assertividade que até Freud bateria palmas!  É isso que Almodovar faz: conta sobre o nosso sofrimento (comum e intenso), retira o humano da banalidade e nos ensina a ver sobre novos prismas, enxergar outros coloridos. Morde e assopra, abraça e parte,  mostrando que há reconstrução  possível. E o que fazemos na vida senão isso?

Grau de salubridade das ilusões: “Me engana que eu gosto!”

•Setembro 9, 2009 • 4 Comentários

Ou seria sanidade? Feliz ou infelizmente acho que ninguém sabe ao certo o que é melhor: iludir-se um bocadinho tornando a vida mais colorida ou lidar com a crueza da verdade, quase sempre dura, mas sem muitos enganos. Escolha de Sofia.  

“Me engana que eu gosto!”. Não à toa a questão virou um ditado popular. Talvez um “enganozinho” inicial não ocorra por gosto, mas por necessidades e carências momentâneas de toda ordem. Olhares, gestos e palavras afinal estão aí para serem interpretados a “bel prazer”. Mas, como prazer e desprazer, assim como outros extremos íntimos como amor e ódio, estão sempre associados: pode dar merda! Como diria uma amiga: “Pronto, falei!” De merdinha à merda federal!

A palavra utilizada para tal explanação é feia em sua definição, mas o que é o palavrão senão um grito alivia-dor, um desabafo mudo, uma síntese confortante. Esta palavra de dimensões inalcansáveis constitui-se- no mínimo- em um “desopila-dor” extremamente eficiente. Portanto, use e abuse deste recurso linguístico! Não se esqueça do bom senso – do tipo por que e para quem- mas pratique o exercício.

Mas voltando à ilusão, que tem não só na rima uma interseção com o palavrão, que grau de domínio temos sobre ela? Podemos escolhê-la e, como um passe de mágica, perceber o exagero e abrir mão dela? Qual o custo? Temos plena consciência de quem somos e o que sentimos/sentiremos em todos os instantes? E a cabeça dos outros? Ai, quando “damos para imaginar” o que por lá transita, ficamos imersos em uma tsunami de ilusões. Se nem nós, donos de nossos próprios pensamentos e sentimentos, conseguimos apreendê-los de forma inequívoca, para que tamanha onipotência? Erro certo! Mas devemos desistir? Um ”ele me ama”, mesmo que posteriormente seguido pela exclamação “aquele filho da puta!” (eita, exercício bão sô!) ainda me soa melhor do que não ter me sentido/imaginado/acreditado ser amada. Engano-me e, em parte, gosto sim! A cultura popular é sábia: experimente!