This is it!

•Novembro 2, 2009 • Deixe um comentário

É isso aí: a lição MJ.

Quase em dia de finados e sem pieguice, fui ver ao cinema assistir a uma lição de vida. Ao longo do “musical” (e haja auto-controle para não dançar!), esquece-se que Michael Jackson morreu… Ele está ali e, apesar dos pesares, é vida pura, praticamente um mito encarnado! Talvez porque nunca o tenhamos associado a algo real. Criança da terra do nunca, borboleta de fases e narizes. Ele constrói castelos, chupa pirulitos (ficou horrível esse trocadilho sem intenção… perdão senhor!!) em pleno setting , freqüenta o abismo e abisma platéias, um mundo.

Menino que tanto apanhou e justifica suas ações “for Love”. Isso é vida, contradição, palco da talentosa singularidade tentando reverter um sofrimento. Nossas melodias, maluquices, bizarrices, danças, metamorfoses, desejos (e o recalque dos próprios) estão, guardadas as devidas proporções, personificados em MJ. Um thriller do Man in the mirror. Aos 50, mas com surpreendente corpinho, performance e voz de 20. Mesmo teimando em não crescer, ele já era enorme. Um espetáculo. “Heal the world. Save the music!”.

500 dias com ela (500 days with Summer)

•Novembro 2, 2009 • Deixe um comentário

Comédia romântica da mais alta categoria. Diverte, emociona e faz pensar. Dá corda naquela “pulguinha” nossa que se sacode para compreender o outro e o que causa ou (des)causa as relações de maneira geral. E olha que somos insistentes!

Eis que a paixão platônica passa ao estágio de relação. Descobertas, encantamento, alegrias… desencontro. Estações diferentes? Ou tudo na vida dos amores pode ser explicado pela ausência ou presença do “toque do sino”, do “coração na boca”, frio na barriga, do enrubescimento? Devemos nos contentar com a nossa “felicidade comum” ou aguardar a alfinetada de inesperado que nos traz certezas meteóricas?

Aparentemente, eles eram felizes. “Imagem não é nada. Sede é tudo.” Valho-me da propaganda de outrora para afirmar que Summer tinha sede, num intransitivo de complemento indefinido. “De quê?” cantariam os Titãs. Esta é a grande questão: ela não sabia, nunca sabemos.

É justo vivermos aguardando a aparição solene da certeza? Há relação sem risco? A tentativa por si só é um ato de coragem ou covardia? Enfim, há algo de intrigante neste sentimento a princípio desconhecido que nos guia a fazer apostas lá e não cá. Confiemos em nossos sentidos sem pensar demais! Passemos por dias de inverno tentando encontrar nosso verão. Primavera e outono também podem fazer parte de uma ou diversas histórias… Pula pulguinha!

“Amar sem inquietação é amar sem amor.” (Drummond)

Prosa e poesia

•Outubro 7, 2009 • 1 Comentário

Há dias de prosa, outros de poesia.  Existe o tempo do explícito e das entrelinhas.  Da conversa e do grito.  Da construção e da ebulição.  Do trabalho e da paixão. Como diria o poeta (compositor, cronista, cineasta, enfim “um cara” – e que cara! – das palavras!) Arnaldo Jabor; do amor e do sexo.  Há convívio harmônico possível (ufa!).  Mas em dias, momentos diferentes. Nós somos esta mescla de sensações e emoções por vezes ambíguas e conflitantes sim, por que não?  Essa é a grande graça da nossa história: nosso rolo compressor e, ao mesmo tempo, mola propulsora.

Há dias em que muitos silêncios tornam-se um único berro.  Noites são viradas pensando ser possível explicar palavras.  Às vezes, elas parecem faltar, mas estão lá …mesmo caladas. Mesmo sem entendimento, nos é dada a chance de escolher as que bem entendermos. E seguimos com nossos paradoxos, ao menos prosas de nossa poesia.

Desassossego

•Outubro 3, 2009 • Deixe um comentário

‘Não se pode comer um bolo sem o perder’

Fernando Pessoa

Base da verdade

•Outubro 3, 2009 • Deixe um comentário

Fugaz

Inalcansável

Por mais que se corra atrás

 

Pretensamente sólida

Construída sobre prismas

De jardim florido

Sórdida

 

Pilar de areia

Charrete da sombra

Venda do mais pomposo cavalheiro

Olho do indefinível

Vadia

 

Verdade.

Abraços partidos

•Setembro 28, 2009 • Deixe um comentário

Sensacional. A sensibilidade de Almodovar é realmente desconcertante.  Cada diálogo, cor ou tomada de câmera revela surpresas e desnuda emoções, sempre intensas.  “Abraços partidos” é definitivamente um filme sensorial, fala literalmente de sentidos, sensações, seleções.  O que escolhemos ver? A cegueira nos é imposta ou, por vezes, optamos por ela?

O protagonista, quando de posse de todos os seus sentidos, não enxerga. Partida, quebra: uma luz que se abre em meio à escuridão de uma vida inteira, de um nome que não é e precisa tornar-se outro para realmente sê-lo. Depois do furacão Harry Cane há a bonança, a descoberta. Do sofrimento descobre-se a força, da dor grandes lições.

Mateo é um apaixonado que não vê. Escreve boas histórias, admira belas paisagens, mas não percebe a riqueza de seus detalhes. Esquece-se dos personagens principais e de que pode ser protagonista de seu próprio roteiro. O único retrato que permanece intacto é o que indica esse jogo de figura-fundo, do ver ou não ver, o que destaca também todos os nossos antagonismos – sofridos, porém belos como um refúgio de amantes.

É um filme até difícil de se falar sobre, tamanhas as sutilezas e metáforas presentes em diálogos que misturam suspense, romance, drama e humor. Em meio à essa miscelânea de sensações e da força dos personagens, não posso deixar de mencionar uma frase que me chamou muito a atenção. Algo como “estava tudo tão duro que, para suportar, eu tinha que sofrer mais”. Olha ele aí: o eterno sentimento de culpa que nos embola, enlaça e aprisiona. Foi uma das melhores descrições que já ouvi sobre o tema. De uma simplicidade e assertividade que até Freud bateria palmas!  É isso que Almodovar faz: conta sobre o nosso sofrimento (comum e intenso), retira o humano da banalidade e nos ensina a ver sobre novos prismas, enxergar outros coloridos. Morde e assopra, abraça e parte,  mostrando que há reconstrução  possível. E o que fazemos na vida senão isso?

Grau de salubridade das ilusões: “Me engana que eu gosto!”

•Setembro 9, 2009 • 4 Comentários

Ou seria sanidade? Feliz ou infelizmente acho que ninguém sabe ao certo o que é melhor: iludir-se um bocadinho tornando a vida mais colorida ou lidar com a crueza da verdade, quase sempre dura, mas sem muitos enganos. Escolha de Sofia.  

“Me engana que eu gosto!”. Não à toa a questão virou um ditado popular. Talvez um “enganozinho” inicial não ocorra por gosto, mas por necessidades e carências momentâneas de toda ordem. Olhares, gestos e palavras afinal estão aí para serem interpretados a “bel prazer”. Mas, como prazer e desprazer, assim como outros extremos íntimos como amor e ódio, estão sempre associados: pode dar merda! Como diria uma amiga: “Pronto, falei!” De merdinha à merda federal!

A palavra utilizada para tal explanação é feia em sua definição, mas o que é o palavrão senão um grito alivia-dor, um desabafo mudo, uma síntese confortante. Esta palavra de dimensões inalcansáveis constitui-se- no mínimo- em um “desopila-dor” extremamente eficiente. Portanto, use e abuse deste recurso linguístico! Não se esqueça do bom senso – do tipo por que e para quem- mas pratique o exercício.

Mas voltando à ilusão, que tem não só na rima uma interseção com o palavrão, que grau de domínio temos sobre ela? Podemos escolhê-la e, como um passe de mágica, perceber o exagero e abrir mão dela? Qual o custo? Temos plena consciência de quem somos e o que sentimos/sentiremos em todos os instantes? E a cabeça dos outros? Ai, quando “damos para imaginar” o que por lá transita, ficamos imersos em uma tsunami de ilusões. Se nem nós, donos de nossos próprios pensamentos e sentimentos, conseguimos apreendê-los de forma inequívoca, para que tamanha onipotência? Erro certo! Mas devemos desistir? Um ”ele me ama”, mesmo que posteriormente seguido pela exclamação “aquele filho da puta!” (eita, exercício bão sô!) ainda me soa melhor do que não ter me sentido/imaginado/acreditado ser amada. Engano-me e, em parte, gosto sim! A cultura popular é sábia: experimente!

Felicidade lunática

•Agosto 8, 2009 • Deixe um comentário

Perdemos a capacidade de olhar para lua

Esquecemo-nos de parar

Afugentamos o sublime

Refugiamo-nos na pressa

 

Perdemos a sacralidade de ver a lua

Tornamo-nos presas das nuvens

Concedemos nosso tempo

Empobrecemo-nos de sentidos

 

Perdemos a felicidade de brilhar com a lua

Naturalizamo-nos artifícios

Escurecemos nosso quarto

Apequenamo-nos no mundo

 

Lua

Nua

Crua

Volto á rima absorta na luz tua.

Coração Vagabundo (e decepcionado)

•Agosto 5, 2009 • Deixe um comentário

Fascinada por poetas e compositores – estes artistas que tem o dom de colocar em palavras  sentimentos comuns e, ao mesmo tempo,  transformá-los em incrivelmente singulares- não podia deixar de conferir o filme sobre Caetano Veloso, “Coração Vagabundo”.  Fui animada com a idéia de conhecer um pouco mais do ser humano por trás do artista, saber um pouco sobre suas emoções, inspirações e processo criativo.

Pura decepção. Saí vazia do cinema… E olha que tenho uma grande tendência a interpretar, encontrar uma lição, me maravilhar com sutilezas… O filme, realmente, nada me disse. Foi uma experiência quase indiferente. A crítica aplaude, fala de um Caetano na intimidade que, a meu ver, fica reservada a uma única cena (condenada ao literal): o famoso flagrante do nu que abre o filme.  Mas, infelizmente, não cheguei à sua nudez, que ficou velosa, velada, limitada.   Pode-se argumentar que a arte é assim: insinua. Mas acho que, acima de tudo, ela expõe, arde, mostra. Por mais que ele próprio afirme que é “aquilo mesmo”, não consegui encontrar àquilo a que se referia e o que esperava me aproximar a partir das cenas documentadas.

Não posso crer que uma pessoa que cria pérolas como Terra, Sampa ou Eclipse oculto (entre as mais famosas e aclamadas) não tenha mais a dizer do que as dissertações apresentadas. Possivelmente o objetivo do filme não era aquilo que eu esperava, mas com perdão da ignorância, realmente não me foi possível compreender qual a sua missão, qual a sua mensagem. Fala-se sobre diferenças culturais, a quebra de fronteiras da música brasileira,  questões do “provincianismo”, mas nada com a voz de quem canta doce e profundamente Cucurrucucu Paloma; cria hinos de gerações e quer guardar o mundo dentro de si. Cadê o Coração Vagabundo?

Atrás de um sorriso

•Julho 14, 2009 • Deixe um comentário

Engraçado quando

Por mais sofrido que tenha sido o encontro

Procuras alento naquele sorriso

Encostado em um canto

 

De linhas retas

Sem curvas, voltas ou retomadas

A boca

 Larga

Contempla todo o percurso

Toma o labirinto

Esconde-se em quimeras

Outrora perdidas na ilusão infinda

 

Devora sentidos

Mina determinações

Explode molhadas sensações

Carnalmente ternas

 

Como se pudesse comer

Resíduos da relação

Mastigar afetos

Triturar não-dizeres

Engolir excessos

Digerir individualidades

Eliminar tudo o que fere sua vaidade

Por trás de um sorriso.