Menino

•dezembro 27, 2011 • Deixe um comentário

O ano passa correndo e o menino senta, alto. A manga lá em cima do pé não tem mais gosto de aventura, amadureceu. Não menino, não vá parar o tempo. A grama já não cheira à infância. Nem aí de cima voltarás a lambuzar-se de despreocupação, a suar contentamento. Do tempo não se recupera. Não menino, não vá parar o tempo. Brinque com ele que já tens 60. Conte que a brancura de teus pêlos é só mais uma peça para vovô. Diga que a tua espada agora é letra. Mas não, menino. Não o renegues. Se já não podes com ele, deite em sua sombra em inverno ou verão. E Verás. A mangueira, também herdeira de seu turbulento silêncio, só mudará de encantos. Não menino, não vá parar o tempo.

A vida dá pé

•dezembro 27, 2011 • Deixe um comentário

Luto com a minha tristeza
E ela me dá um golpe de esperança
Dou um porre na minha alegria
E ela me enche os olhos de ressaca
Brindo a minha ousadia
E ela finca meus pés a ferro e champagne
Retalho a minha dor
E ela costura a ferida mais funda
Sacio meu espelho (ah! E este tem tantos quereres)
E ele me impõe um novo ideal
Do inesperado, um insistir, um flerte
Com uma vida que me pega pelo pé
Mas me carrega no colo.

Frágeis somos

•dezembro 1, 2011 • Deixe um comentário

Frágeis somos!
Frágil soma
Um mais um
Uns nas mãos dos outros
Na co-dependência de vontades, entendimento
Carinho, ciência
Na saúde, na doença
No corpo ou na alma
Frágeis somos!
Pele com outra pele
Pele contra pele
A favor do seu, emaranhado no meu
Iludido super poder
Diluído na soma
Que o real traz
e no corpo esfrega, contumaz.
Frágeis somos!
É frágil qualquer subtração.

Beijos Verdes

•novembro 11, 2011 • Deixe um comentário

Caio era conhecido na comunidade. Começara a carreira como mula e hoje iniciava a sua coleção de dólares graças ao entorpecimento da classe média carioca. Filho de mãe forte e pai desconhecido, foi rebelde ainda pré-adolescente e deixou levar-se pelas facilidades oferecidas pelos “Caras” do morro, um verdadeiro time de traficantes elevados a categoria de ídolos.

Foi por causa das “verdinhas” que Caio conheceu Verônica. Vica, como era conhecida no asfalto, começara a freqüentar bailes funks aos 15, para desespero de sua loiríssima mãe, moradora da Barra da Tijuca. Léia era uma emergente clássica e dava mais valor aos anéis que aos dedos. Finais de semana foram se passando e o que, a princípio, parecia aventura de patricinha, tinha se tornado algo visceral e muito desejado pela menina. A frequência da balada foi aumentando e Vica se enturmando com os reis do pedaço, com o time da pesada. Tentada pelo luxo e conforto oferecidos, ela foi ficando e tornando o duplex na Maré a sua moradia.

Totonho era o nome do maestro de seus sonhos e seqüestrador de sua juventude. Foi ele quem fez da adolescente uma de suas esposas. Mas Vica não esquecia um certo olhar maroto mirando seu corpo na clássica rebolada até o chão em seu primeiro baile. Como a primeira vez não se esquece, os olhos verde-oxigenados de Caio tiravam-lhe a paz. Ela era sua amante em fantasia. Pensava que um dia ele poderia ser rei como Totonho e lhe proporcionar vida igual.

Ledo engano. Percebendo os suspiros de sua escolhida por outro alguém, Totonho boicotou trabalho a Caio e fez da vida do rapaz um deserto. Vica então prometeu ao seu algoz e salvador de bens, alguns beijos eternos para que o mesmo não lhe acontecesse. E seguiu com Caio em seus mais íntimos sonhos. Neles, ele era todo verde, e dourava.

Leticia III – Esperança de Alegria

•novembro 1, 2011 • 1 Comentário

Só hoje consigo escrever. Só hoje consigo respirar em alívio. O sorriso de Leticia é a pura poesia, a sua voz um deleite. Diante dos recentes desafios impostos, ela vem e, mais uma vez nos prova que Alegria é o seu nome. Ficamos desorientados, perdidos, esquecidos no momentâneo sofrimento, mas também nos percebemos mais fortes e unidos, movidos pela indescritível energia e vitalidade de um pinguinho de cinco anos de gente. Leticia foi – desde sempre- lição. Para além da busca do sentido do acontecido, faz-nos sermos melhores em intenções e ações. O susto passou, mas o fruto do repensar a vida, nossos mundos e valores ficou. Benza a Deus, Santo Antônio, São Gabriel (Mufarrej) e a todos que fizeram parte desta corrente tocante de renovação da esperança.

Segue o terceiro poema em que tento colocar em palavras o tamanho dessa pequena enorme alegria.

Colo
Queríamos te proteger de todos os males
Que não saísses de nossos colos,
Que não desviasses de nossos olhos.

Mas a vida, essa malandra
Quer-te aos mares,
Instiga-te a provares,
Sensações improváveis,
Desafios inimagináveis
Dá-te força, sorte, coragem
Impõe-te a palavra,
Puxa o teu grito, teu choro, tua vontade

Vá-te onde quer que ela esteja
Viva para contar a tua história
Acalmar e embalar
A nossa fragilidade adulta
Revigorar
A nossa força infantil.

Mundar

•novembro 1, 2011 • Deixe um comentário

Ao escrever um texto, cometi um erro de digitação e me deparei com o novo verbo: “mundar”. Se eu optasse por mondar, simplesmente corrigiria e tiraria o n intruso da minha ação de mudança. Mas a vontade é de Mundar mesmo. Veio-me instintivamente um semi-pleonasmo: “É preciso mundar o mundo” (dentro de uma lógica um tanto quanto singular). No relance de meu piscar de teclado, seria como se sinônimo de humanizar. Mas fui além e descobri o mais além do pessoal verbo: ampliar, tornar cada mundo um mundo mesmo, em toda sua vastidão e infinitude. Em toda a sua semelhança com o popular mudar, o recém conhecido mondar e todas as associações possíveis (inundar ou adjetivar/ subjetivar com o imundo mundaréu), o meu mundar significa tentar incorporar e desfrutar de tudo que o mundo tem para oferecer. Sem pretensões megalomaníacas, é olhar para o mundo, composto tantos vários “submundos” fascinates (e não tão distantes). É ter e criar a possibilidade de vê-los, escolhê-los e aprendê-los. Mundemos nosso mundo/ nossos mundos! Sejamos por vezes redundantes, mas criemos nossos verbos.

Olhos de faca

•novembro 1, 2011 • Deixe um comentário

O olhar do menino era como faca. E matou-me. Morri de culpa.
Por trás do vidro acondicionado de meu carro, um mundo que eu não conhecia, ou pior, que eu não via. Os pés descalços, a barriga cheia de vazios e as lágrimas sujas do menino me inundavam. Sentia-me um super-herói às avessas: com tudo para mudar o mundo (ou apenas um mundo) e sem fôlego para fazê-lo. Queria verdadeiramente poder salvar-nos.
Mas o sinal passou ao verde. Vidas seguem em vermelho.

SE quis SIM- viagens da liberdade

•outubro 26, 2011 • Deixe um comentário

Ontem eu te quis.
Hoje eu te Kiss
Beijos, queijos, desejos
Associações, explosões
Tudo que liberto
Desprendido de sentido
LIVRE
Li-dor de mim
Livro de você
Histórias
Memórias
O sentir aprisionado
Que não pode gritar, que não poder correr ,morrer
Que de ser não tem nada
Que o dever põe para vala
Que valha
Tudo que sair
Tudo o que vier
Do jeito que for
Solto.
Sou tu
E não sei se quero
Se espero
Se prevejo
Se desejo
De se em se chega-se ao SIM?
asSIM saiu.
E
Hoje eu te quero.
Amanhã eu te Kis-ser-ei

Pressentimento

•agosto 10, 2011 • Deixe um comentário

Quando fui convocada a falar
Não sabia nem mensurar
Onde aquilo ia dar
Quando fui recrutada a amar
Não podia nem sentir
O tamanho do porvir

Meu pré-sentimento.
Meu pós-sentido.

Eu me escrevo

•agosto 3, 2011 • Deixe um comentário

As minhas rimas nem eu sei ler
Ultrapassa-me o desejo de escrever
Com os sentidos rumo ao sem sentido
Com apreensão frente à incompreensão
Minha e de todos
Minha e de ninguém
Uma escrita
Para mim ou por mim, vaidade?
Para o outro ou pelo outro, ingenuidade?
Minhas linhas são sem destino
Decifrá-las um denso caminho
Torná-las simples, uma possibilidade?
Não controlá-las, um medo?
Minhas letras são sem um meio
Um refrão sem recheio
Aprenderei e me desvirtuarei?
Ignorarei e me libertarei?
Cenas das próximas palavras.

 
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